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Os programas sensacionalistas e o estelionato eleitoral | Francisco Calheiros

Atualizado: 8 de jan.

É sabido que o papel do Estado é nos proporcionar bem-estar social, que se traduz em segurança, saúde e educação, fazendo com que a sociedade viva em harmonia. No Brasil, entretanto, o poder público é ineficiente em todos os sentidos e fomos governados por gente medíocre ao longo da nossa história.

Nessa grande imoralidade administrativa em que se transformou o país, surgem os pseudolíderes que usam emissoras de rádio e televisão como trampolim político. O Brasil inteiro é vítima desse jogo sujo por parte daqueles que usam a miséria social para se eleger vereador, deputado, senador e até governador.

Na década de oitenta, Manaus tinha A HORA DO POVO, que deu ao seu apresentador Nonato Oliveira várias eleições para a Assembleia Legislativa e até chegou a concorrer ao Governo do Estado. Programas como EXIJA SEUS DIREITOS (Marcos Rota), FOGO CRUZADO (Henrique Oliveira), PROGRAMA DO SABINO e CANAL LIVRE (Wallace Souza) deram continuidade a esse mundo bizarro, aplaudidos por um segmento da sociedade que idolatra os seus próprios agressores.

Canal Livre foi o mais famoso de todos e até virou série na Netflix – “Bandidos na TV”. Os apresentadores combinavam mortes com policiais bandidos para primeiramente mostrarem em seu programa e, com isso, tornarem-se líderes em audiência. Essa fórmula maldita parece que é hereditária. O Canal Livre continua, agora com um dos filhos dos apresentadores, um rapaz nervoso, que se expressa mal e não tem argumentos para falar mais do que o óbvio.

Que os meus vinte leitores não se iludam: Sikera Júnior - candidato a prefeito de Manaus ou a governador do Estado - poderá ser eleito. O amazonense tem histórico de votar em aventureiros que chegam aqui, ingressam na política, ficam ricos à custa de um povo que não acredita mais em nada. Por outro lado, não sei se por ironia ou destino, esses pseudomessias costumam ter um fim trágico: um está em estado vegetativo; outro morreu; outro foi condenado e recorreu da decisão; outro foi cassado pela justiça eleitoral, e o governador Wilson Lima foi flagrado pela Polícia Federal com uma lista de deputados que, segundo as investigações, receberiam 5% de propinas das fraudes na saúde. O povo, na sua inocência, acredita, vota, idolatra, mesmo sendo a maior vítima desse estelionato eleitoral.

A raiz de tudo isso está na educação do Brasil. O que esperar de um país em que a live do Manoel Gomes – autor de Caneta Azul - alcança milhões de visualizações? O que esperar de um país em que é preciso de lei para proteger o idoso, a mulher e a criança? Se fôssemos uma sociedade civilizada, essas leis seriam desnecessárias. O que esperar de um país em que milhões de pessoas acham que a pandemia é uma gripezinha, mesmo tendo matado mais de 90 mil pessoas? O que esperar de um país em que as pessoas pedem a intervenção militar, a volta do AI-5, defendem o racismo e acham o feminicídio algo natural? O que esperar de um país em que, segundo o TCU, mais de 620 mil pessoas fraudaram o Auxílio Emergencial, causando um prejuízo de mais de um bilhão aos cofres públicos? O que esperar de um país em que os profissionais de saúde são agredidos em hospitais? O que esperar de um país em que a saúde não cura, a segurança não protege e a escola não educa? Conclui-se que a destruição deste país não ocorre somente nas classes menos favorecidas.

No dia 15 de novembro, teremos as eleições para prefeito e vereador. Parece que o estelionato eleitoral vai se repetir, porquanto a sociedade brasileira insiste em ignorar a importância da ciência política para o bem-estar social, não discute projetos, não exige resultados, acha bonito votar em corruptos, e deve continuar elegendo políticos da pior espécie que compõem as vísceras pútridas de um sistema político que tanto nos envergonha.

E, para encerrar, os críticos versos do poeta Alcides Werk: “E, de repente, me vem uma vontade provisória de encher os bolsos de demagogia, entrar em cada casa com uma estória, qualquer que seja - que não seja séria, falar de tudo, menos de miséria -, prometer coisas que não cumprirei, como se faz em tempo de eleições, para que sejam menos infelizes, enquanto o rio esconde as roças podres, mastigando ilusões”.

 

Sobre o autor


Francisco Calheiros é advogado, professor com décadas de experiência e autor dos livros Provável Poesia (1996), Canções de novembro e algumas preces (2007), Quadro Negro (2012) e outros dois a publicar. É também colunista no Epifania Política.

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